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terça-feira, 10 de maio de 2011

O fim do mundo



Olá, pessoas!!!!!


   Hoje, estava pensando no que postar no blog, aí me lembrei da faceta um pouco menos conhecida de Cecília Meireles, que é a de escritora em prosa. Pesquisando, encontrei esta crônica belíssima,cujo título é "Fim do Mundo", mas que na verdade no leva a refletir sobre como conduzimos a nossa vida e o que fazemos dela, uma vez que não sabemos qual será o dia que "teremos fim". Aí vai a crônica de Cecília Meireles. 


O Fim do Mundo (Cecília Meireles)

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.
Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...


   Reflitamos, junto com Cecília Meireles, sobre o que estamos fazendo de nossas vidas.
Beijos
Amanda

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Elegias de Cecília Meireles

Olá, pessoas!!!!

      Estou um pouco sumida do nosso blog. Infelizmente, o trabalho vem consumindo muito minhas energias, mas, prometo que vou melhorar a frequência de postagens aqui no nosso "cantinho".
     A maioria das minhas postagens é por causa dos meus alunos, do que estamos lendo em sala, do que estamos estudando, enfim. Porém, algumas das minhas postagens são motivadas por reflexões minhas sobre a vida ou por causa de algum momento da vida. Hoje, a postagem é pelo segundo motivo: momentos da minha vida. Ontem, uma grande amiga minha perdeu sua mais que avó, sua Mãe. E hoje, diante do incomensurável sofrimento vivido por ela e acompanhado por mim, lembrei-me das elegias que Cecília Meireles escreveu, também por ocasião da perda de sua também mais que avó e que mostram, com tanta beleza, como dói perder alguém tão amado. Por isso, hoje, posto duas elegias (poemas feitos por ocasião da morte de alguém. Segundo o dicionário Michaelis, poema pequeno dedicado ao luto ou à tristeza). A primeira que trago, foi a primeira das nove escritas. E por ser a primeira, é a mais dolorida. A segunda que trago, foi a a terceira escrita e já se percebe uma resignação maior, uma saudade maior e uma dor mais branda, como o tempo faz aos corações que perdem alguém.
 Aí vão as elegias.


                                                          1

MINHA PRIMEIRA LÁGRIMA caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.
No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.
Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade
[da lua

Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras,
e a voz dos pássaros e a das águas de correr, - sem que a
[ recolhessem teus ouvidos inertes.
Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?

Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho.
E tristemente te procurava.
            Mas também isso foi inútil,     como tudo mais.

 



  Aí vai a segunda elegia que trago.



3

MINHA TRISTEZA é não poder mostrar-te as nuvens brancas,
e as flores novas, como aroma em brasa,
com sua coroas crepitantes de abelhas.
Teus olhos sorririam,
agradecendo a Deus o céu e a terra:
eu sentiria teu coração feliz
como um campo onde choveu.
Minha tristeza é não poder acompanhar contigo
o desenho das pombas voantes,
o destino dos trens pelas montanhas
e o brilho tênue de cada estrela
brotando à margem do crepúsculo.
Tomarias o luar nas tuas mãos,
fortes e simples como as pedras,
e dirias apenas: ‘ Como vem tão clarinho!’
E nesse luar das tuas mãos se banharia a minha vida,
sem perturbar sua claridade,
mas também sem diminuir minha tristeza.


Para quem ainda não a conhece, trago uma foto de Cecília Meireles.
     Reflitamos!!!!!

Beijos

Amanda